quarta-feira, 25 de março de 2015

POR QUEM OS PRATOS QUEBRAM?




"No debate, a máxima tolerância; na ação, a máxima unidade" Antonio Gramsci

Quando lutamos pela defesa dos interesses dos trabalhadores, às vezes, temos que quebrar os pratos. Mas sempre com o inimigo bem identificado, qual seja, as elites e as personificações do capital. Às vezes com alguns grupos que jogam água no moinho da direita

Só justifica quebrar os pratos contra os adversários da classe.

Estamos diante de uma conjuntura “explosiva”, onde a direita assanhada busca derrotar os avanços conquistados conduzidos pelos governos populares e, de lambuja, se a correlação de forças permitir, apear do poder o governo eleito.

A CONTRAF é uma importante ferramenta de luta dos trabalhadores. Tem um papel importante a desempenhar.

Nos preocupa o que ocorreu no 4° Congresso onde se escancarou uma grave crise na direção da Entidade. Uma crise com pouca nitidez para quem não está no meio do processo, ou seja, a maioria dos bancários.

Um Congresso que ocorreu em um momento extremamente complexo da historia brasileira, onde os debates políticos foram praticamente nulos.

Como está delineado o processo, parece que não são pelos bancários que os pratos quebram!

Judicializar, buscar superar a situação de forma burocrática, revela caráter intransigente. Depois de tantos anos compartilhando caminhos e práticas, que tamanha divergência leva a tudo isso? O que está impedindo uma solução dialogada para os conflitos?

Ora, no momento vivido, não temos o direito de que interesses de grupos, incompreensões, incapacidade de construção de consensos, tire o necessário foco de buscar pavimentar os caminhos da resistência e dos avanços necessários.

No campo popular devemos evitar chegar a essa situação pois a unidade é essencial para resistir e avançar.

Não uma unidade formal, sem princípios, meramente para garantir poderes em aparatos. Uma unidade em torno de concepção e prática transformadora.

Pois então, como se constrói a unidade? É na ação e no fraterno, transparente e incisivo - se necessário - debate.

Crise é oportunidade, mas pode ser também um desastre.

Chamamos a todos(as) a buscar reconstituir nossa unidade e mais além, pois o momento impõe ampliar os arcos de alianças no campo popular.

Todavia, talvez seja necessário lavar alguns pratos sujos para azeitar a máquina da Contraf diante dos desafios e dos fardos que temos pela frente.

O primeiro prato sujo a ser encarado é a falta de transparência – A própria crise instalada, cujas causas são de difícil identificação, mostra que a vida da entidade não é muito cristalina.

Devemos superar, também, a estrutura vertical. Em tempos de redes sociais, de um mundo cada vez mais horizontalizado (inclusive nas empresas), é imperativo que incorporemos mais e mais sindicatos/trabalhadores nas formulações das políticas e nas decisões da entidade.

Permitir/estimular/ estruturar-se para ampla participação dos trabalhadores é imperativo.

É preciso superar a democracia de baixa intensidade, onde o cupulismo vigora – As decisões são, em sua maioria, feitas pelo campo majoritário, com dificuldades de incorporação de minorias (ou maiorias?) no processo de deliberação.

Podemos elencar outras questões a serem enfrentadas: a formação de baixa intensidade; a cultura do “pequeno debate” (carros/viagens/celular/estrutura) em detrimento das grandes causas, grande lutas.

É essencial identificar claramente as diferenças. A partir daí, buscar a unidade em cima de propostas concretas, conectadas com uma estratégia de longo alcance, pavimentada por uma tática adequada.

É uma oportunidade de repactuar, com todos atores, a gestão da entidade. Sistematizar um plano de luta ousado. É um momento de resistir para não perder direitos e mais além. Só vamos resistir, avançando.

Momento exige e facilita o debate mais estratégico quanto ao futuro da luta dos trabalhadores e de nossa categoria. Aproximou-se sobremaneira, a demanda imediata dos bancários das grandes questões nacionais.

A Política econômica afeta o dia a dia e o futuro da categoria. Futuro que depende do debate e da disputa sobre os rumos do país.

A questão previdenciária não se resolve somente com negociação com os bancos; Combate à corrupção só com reforma política.

Nossa categoria é afetada pela política tributária injusta. É um setor de classe média que está no meio do furacão. É bastante influenciada pelo ataque midiático e pela propaganda interna dos bancos.

O tacão da PL 4330 está sobre a cabeça da categoria. Uma luta difícil e decisiva para o futuro dos bancários.

Portanto os “pratos sujos” apresentados e os desafios que temos pela frente clamam a unidade. Lavar os pratos para “limpar a cozinha” e preparar a resistência/ofensiva necessária.

Estamos todos no mesmo barco. Problemas, quem não os tem? Mas a alma não pode ser pequena nesse momento. A política é feita de pessoas, os grupos são constituídos de seres humanos.

Nosso time junta os melhores corações e deve estar batendo no rumo dos verdadeiros objetivos dos trabalhadores. Essas energias precisam ser canalizadas para a boa luta.

Para isso é essencial a unidade das esquerdas e muita conversa com o povo, muita luta.

Tudo isso compreendendo a correlação de forças, o assanhamento da direita, na espreita para que retrocessos substanciais aconteçam.

Sem ingenuidades e sectarismos mas acreditando na força do povo, buscando impor nossa pauta, nossas razões convincentes e não, de forma acrítica, abraçar as razões governamentais.

Enfim, precisamos de um trabalho de tradução, que “visa esclarecer o que une e o que separa os diferentes movimentos e as diferentes práticas, de modo a determinar as possibilidades e os limites da articulação ou agregação entre eles”. (Boaventura Santos)



domingo, 8 de março de 2015

ÀS PORTAS DO GOLPE




“Estamos diante de dois futuros possíveis, ambos marcados por uma ruptura com o passado. Um é desesperador; o outro traz novas esperanças. Por definição, nenhum dos dois é infalível; tanto podemos cair novamente quanto nos reerguer. (Alain Touraine)

Temos visto muitas análises pessimistas do momento em curso. De fato é preocupante. Todavia devemos olhar com serenidade os cenários para buscar as oportunidades de transformação que o momento apresenta.

“Quando escrita em chinês, a palavra crise está composta de dois caracteres, um representa perigo, o outro representa oportunidade”.

Portanto, temos que transformar a crise em uma oportunidade de avanços. A derrota só será bebida amarga se concordarmos em tragá-la.

Duas questões estão em disputa:

- A narrativa do processo, numa peleia desigual, com a mídia mentindo e manipulando como nunca visto.

- A vida real, onde as medidas econômicas afetam o cotidiano das pessoas, influenciando comportamentos, posicionamentos, e a própria narrativa.
Devemos disputar essa narrativa, com mobilização e ideias convincentes;

Está claro que as bases parlamentares e partidárias, aliadas do governo, estão movediças e ruindo. Um governo popular, especialmente em uma crise dessas proporções, precisa fincar raízes no único aliado firme, o povo e os movimentos sociais organizados.

Existem poucas dúvidas de que ajustes nas contas governamentais precisam ser feitas. A questão é quais ajustes? As propostas até agora apresentadas, só penaliza o andar de baixo.

As medidas adotadas pelo governo são de alto risco e, sinceramente, espero que dê certo. Conforme o Ministro da Secretaria-Geral da Presidência, “estamos vivendo um período de resistência que será fundamental para recuperar a capacidade da economia já em 2015 para começarmos um novo ciclo de crescimento a partir de 2016.” (Sul21) 

Parece “estratégia Garricha”; espero, que tenham combinado com o “lateral”, o “João (do) mercado”.

Mudar a linha econômica escolhida pelo governo é essencial para que o futuro não seja desesperador. O tarifaço, potencial desemprego, entre outras consequências das medidas escolhidas, podem afastar a base de apoio popular.

Enquanto movimento social, nossa pressão terá que ocorrer coordenado em duas direções, de forma integrada.

- Pressão sobre o Governo para mudar a rota, especialmente das políticas econômicas. O governo escolhe seu caminho sob forte tensão e devemos pressioná-lo para corrigir a rumo.

- Concomitante precisamos, de forma decidida, enfrentar o reacionarismo que busca golpear a democracia. É ofensivo no congresso, votando contra os trabalhadores, com um judiciário ativo no conluio. Nunca é demais ressaltar que tudo é articulado pela imprensa militante/golpista.

O Golpe que falo não é somente contra o Governo eleito. Armam-se tempestades sobre os direitos dos trabalhadores, que poderão ser golpeados pelo Congresso Conservador e pelo Judiciário que julga na perspectiva das elites.

Para enfrentar o turbilhão temos que ter apoios e apelo popular. Não estamos enfrentando voluntaristas desarticulados. É um cerco, com conexões internacionais (vide Venezuela, Argentina), que se fecha sobre o governo brasileiro. Tem uma extensa articulação no parlamento, no judiciário, na Polícia Federal, sendo coordenado pela grande mídia.

Montalban, sintetiza nossas dificuldades e contra quem/o que estamos lidando. Compreendendo que “a pureza teórica de que os cidadãos são livres para se comprometer, buscando uma correspondência entre a proposta política e suas próprias necessidades, está falsificado por diferentes fatores:
 

- O poder econômico, mediáticos e estratégicos onde grupos dominantes com tentáculos internacionais impõe agenda;
- O capital fortalece os aparatos partidários que lhe são mais propensos;
- Elementos culturais, ancorados em ideias instrumentalizadas pelos veículos ideológicos do bloco dominante.


Quando os inimigos atacam de todos os lados, com o desânimo e desorientação de muitos, precisamos construir as condições para deixar de recuar, desfechando a necessária ofensiva. Os movimentos sociais são forças que podem fazer a diferença. Resistindo e fazendo avançar, simultaneamente.

O Governo Dilma poderia ajudar. Infelizmente as medidas tomadas até agora dificultam a ação dos movimentos. É só pauta negativa.

DEPOIS DA CRISE

“É inquestionável que as coisa vão mudar depois da crise. O retorno ao mundo pré-crise não é cogitado. Mas, serão estas mudanças profundas, radicais? Direcionar-se-ão para um bom rumo? Perdemos o sentimento de urgência, e aquilo que até agora se passou assombra o futuro”. (stiglitz)

Não tenhamos dúvida, depois da crise, teremos uma realidade diferente, uma correlação de forças modificada.

Poderemos ter avanços ou amargar retrocessos.

Creio ser consenso entre as esquerdas e setores progressistas a necessidade de reagir/agir contra a tentativa de impor retrocessos ao povo.

Todos apregoam que é preciso ir às ruas, se comunicar melhor. Retomar a iniciativa, sair do córner.

As dúvidas são: por onde começar; o que mobiliza amplas camadas da população.

Não há dúvida que precisamos rapidamente definir uma plataforma unificada que encante o povo.

Guardando paralelos pois são circunstâncias muitos diferentes, gostaria de lembrar a ousadia de Lenin em 1917, que após a primeira revolução democrática em fevereiro, defendeu, já em abril, a necessidade de aprofundar as mudanças e tomar o poder realizando a revolução socialista, que foi concretizada em outubro. Foi taxado como louco por muitos quando apontou essa necessidade. Não teve medo de triunfar!

SEM MEDO DE OUSAR

Ganhamos no voto, não ganhamos em organização. E, principalmente, houve recuo do governo em relação ao discurso da campanha eleitoral.

O antídoto contra o golpe em gestação é aprofundar as mudanças. não devemos ter medo de ousar.

É um momento de resistir para não perder direitos e mais além. Só vamos resistir, avançando.

A tendência pós-crise, é não ficar como está. E cá para nós, também não queremos que fiquemos na inércia. Queremos mais, “muda mais”!

Conquistamos liberdades; precisamos defendê-las! Mas, igualmente, faz-se necessário criar um movimento que, partindo das demandas e das reivindicações as mais diversas possíveis, reavive e ao mesmo tempo controle o mundo político.

Diante disso, precisamos traduzir nossas propostas para que o povo entenda e venha junto na construção das mudanças. Precisamos, com urgência meteórica, sintetizar nossa plataforma.

O debate está nas ruas, aproveitar o interesse da sociedade sobre a política, buscando influenciar a opinião pública. Temos que ter a competência de disputar a narrativa.

Por falar em plataforma, não tenho dúvida que a defesa da Petrobrás é elemento chave. Simboliza a defesa do Brasil, nosso passaporte para enfrentar as desigualdades.

A Defesa da Democracia, contra a tentativa de golpe é elemento essencial. Com a lista da Lava-Jato fica mais fácil de mostrar a necessidade de uma Reforma Política, concentrando as críticas no Congresso Conservador.

Temos um cardápio repleto: Reforma Política; Reforma tributária; Reforma agrária e rural; democratização da mídia...

Enfim, precisamos de um trabalho de tradução, que “visa esclarecer o que une e o que separa os diferentes movimentos e as diferentes práticas, de modo a determinar as possibilidades e os limites da articulação ou agregação entre eles”. (Boaventura Santos)

Precisamos fazer romper o “silêncio da vítimas”, construindo um sólido processo de mobilização com uma plataforma comum e grande espírito de unidade.

Assim, temos a oportunidade histórica de catapultar as bases para avanços consistentes em um novo ciclo de desenvolvimento com igualdade e democracia real.

O dia 12 de março no RS e 13 nos demais estados, é mais um momento desse processo. Devemos jogar todas as nossas energias para uma grande mobilização.

É hora de firmar o timão, e navegar com firmeza para cima das ondas e levar a esquadra Brasil para águas mais tranquilas, liquidando a privataria golpista.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

MEDIDAS LEVYANAS






Depois das reduções de benefícios aos trabalhadores divulgado no final de 2014, começamos o novo ano com uma série de aumentos de impostos. São medidas com potencial recessivo e, como é imposto que afeta a todos, tem um caráter regressivo.

E para arrematar, o veto à correção da tabela do Imposto de Renda, que há muito está defasada. 

A preocupação aumenta diante das constantes declarações da equipe econômica contra o papel de vanguarda dos bancos públicos no financiamento subsidiado.

E agora, mais um aumento da taxa de juros básicos da economia (selic), de 0,5%, acelera a marcha recessiva..

A política econômica do Governo está a caminhar no rumo da ortodoxia, que pode trazer consequências de difícil reversão. 

Se as medidas causarem algum nível de recessão e consequente desemprego haverá um descontentamento considerável. E o que garante que voltaremos a crescer logo ali adiante?

Os riscos devem estar calculados. Mas não é simples a equação. As variáveis econômicas não são tão previsíveis assim.

O governo pode estar sendo inconsequente, ao não calcular os impactos sociais e os desdobramentos políticos.

Se calculou, pode estar sendo imprudente, apostando num caminho que contradiz o discurso eleitoral e que pode não fechar a equação como previsto.

Pode estar sendo insensato, correndo o risco de ficar refém do conservadorismo e dos financistas e distante da base social.

Foi precipitado ao não avaliar outras possibilidades de ajustes.

Porque não ousar e buscar a taxação dos ricos, do patrimônio, as fortunas e heranças e dos fantásticos ganhos financeiros? E uma nova CPMF para a saúde ou previdência?

O que precisamos combater é a lógica Levyana que, no alto da ortodoxia, não consegue ver (ou não quer) que é um modelo que não vem dando certo onde foi aplicado, com o debate caminhando para outras saídas. Até o Obama está propondo taxação para os ricos.

Não é possível persistir com esse modelo de sociedade onde “A parte da riqueza mundial nas mãos do 1% mais ricos subiu de 44% para 48% entre 2009 e 2014. Agora 80 pessoas detêm mais riqueza acumulada do que os 3,5 bilhões de pessoas na base mais pobre da sociedade (para uma população mundial da ordem de 7 bilhões). Este sistema está implodindo. Muitos países estão se tornando desgovernados. Os pobres já não são os resignados de antigamente”. (Ladislau Dawbor).

E sobre essa escandalosa constatação – 1% vai ter mais renda do que 99% da população mundial, sendo que 1% representa apenas 0,7% da população.

O Movimento social, e o sindical em especial, deve disputar os rumos do país. Aliás, já está fazendo ao questionar as medidas prejudiciais aos trabalhadores nos benefícios previdenciários e no seguro-desemprego. Uma agenda de luta está em andamento.

Devemos enfatizar o debate de qual modelo de sociedade os trabalhadores almejam. Quem e como será financiado o desenvolvimento. Avançar para a solução das enormes desigualdades que persistem em nosso país, das maiores concentrações de renda do mundo.

Precisamos descobrir os elos mobilizadores para construir uma grande mobilização social para conquistarmos uma democracia substantiva, real. Uma verdadeira Revolução democrática para que o país não fique refém dos arranjos congressuais.

Onde possamos avançar para uma Reforma Tributária progressiva onde os que tem mais paguem mais. Rumo a uma sociedade onde o meios de comunicação garantam a pluralidade de opiniões e não de meia dúzia de famílias, a serviço da elite retrógrada.

Para isso é essencial a unidade das esquerdas e muita conversa com o povo, muita luta.
Tudo isso compreendendo a correlação de forças, o assanhamento da direita, na espreita para que retrocessos substanciais aconteçam.

Sem ingenuidades e sectarismos mas acreditando na força do povo, buscando impor nossa pauta, nossas razões convincentes e não, de forma acrítica, abraçar as razões governamentais.

Como disse Boaventura Santos, “a vossa luta é a nossa luta; somos 99% e eles 1%; se nos fecham o futuro, abrimo-lo de novo; se nos negam as instituições, a rua é afirmativa; se nos negam a democracia, democratizemos a democracia; e a prova dos nove é a alegria".



Wikcionário:

le.vi.a.no
  1. inconsequente
  2. imprudente
  3. insensato
  4. precipitado

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

GOVERNO DILMA: SINAL DE FUMAÇA!




CORTINA DE FUMAÇA?

As primeiras medidas e sinalizações do futuro governo Dilma deixa esfumaçado o ambiente. 

A esquerda tem expectativas de avanços para os setores populares. A campanha eleitoral da candidata, principalmente no segundo turno, apontou para isso. Seu discurso eleitoral foi (ou teve que ser) pontuando diferenças profundas com o ideário conservador. O discurso de posse foi positivo, reafirmando compromissos.

O que tem preocupado são algumas medidas anunciadas. Também traz insegurança as falas contraditórias dos novos ministros.

Seria uma cortina de fumaça escondendo o jogo? Fazer o mau no começo para que o bem venha na sequência?

Um leve sopro sobre a fumaceira mostra que as mudanças no seguro-desemprego, aposentadorias e benefícios previdenciários anunciados pelo governo, inegavelmente, trouxeram reduções nos benefícios.

A justificativa de corrigir distorções não satisfez, pois as medidas penalizam os trabalhadores, sem enquadrar os empresários que são partes do processo.

Por exemplo, o grande problema em relação ao seguro-desemprego é a rotatividade de mão de obra, e não a malandragem de articular a demissão para ganhar o seguro e depois voltar a trabalhar em outro emprego. E ampliar o prazo para ter acesso ao benefício em tempos de alta rotatividade, torna-se mais problemático.

Como é a rotatividade o grande mal que assola os trabalhadores, por que não regulamentar a Convenção 158 da OIT que impede a demissão imotivada? Seria uma medida que iria na raiz do problema e traria amplos benefícios sociais.

Outra sinalização inaceitável é a abertura de capitais da CEF, abrindo mão de sua condição 100% estatal. Seria prescindir de um instrumento de regulação do sistema, que já foi usado com sucesso na crise econômica persistente.

Caso o capital seja aberto, quem comprar ações da Caixa exigiria garantias e, por conseguinte, o acionista majoritário perderia autonomia na gestão. Será que seria possível manter o seu papel de fomentador das políticas sociais do governo?

Sem falar nos ajustes de governanças e adequações às exigências do mercado na estrutura da empresa para tornar atrativas as ações a serem vendidas.

FOGO À VISTA?

Mas pode ser uma cortina de fumaça apontando que vem chumbo por aí, com a direita botando fogo na conjuntura, sendo preciso chamar os bombeiros do centro radical para aplacar os ímpetos conservadores. 

Ou ganhar tempo para consolidar uma base social para fazer frente à reação?

Ou tudo isso e mais um pouco...

Mais um pouco de aperto para os subalternos...
ou mais um pouco de medidas progressistas...

Parece que, de fato, são necessários ajustes nas contas do governo para fazer frente aos desafios do desenvolvimento. Mas até agora, de concreto, só vimos medidas que afetam os “de baixo”. A dúvida não é quanto à necessidade de medidas. A questão é quais ajustes, quais medidas.

No caso das medidas anunciadas, não vimos até agora propostas para resolver a essência dos problemas, atacando a rotatividade de mão de obra, o conluio dos empregadores nas fraudes, com a ampliação da fiscalização do Ministério do Trabalho sobre as empresas que estão adoecendo “a rodo” e despacham os funcionários para a previdência arcar (aliás, a fiscalização do MTE foi esvaziada). E, para preocupar ainda mais, surge a proposta de parceria com as empresas para a perícia do INSS. Deixar a cargo do “lobo cuidar do galinheiro”.

Devemos frisar que essas medidas foram lançadas sem nenhum diálogo com os trabalhadores.
Creio que, para o governo não ficar refém do conservadorismo, não há saída sem diálogo social amplo.

Urge pautar o debate quanto a um novo padrão de sociedade onde se busquem mecanismos de financiamento das políticas públicas. Com certeza a maioria do povo não quer continuar sendo o principal alvo em um país que, conforme Beluzzo "rico não paga imposto".

Porque não buscar outras alternativas para atingir o equilíbrio fiscal e para financiar a saúde, a educação, aposentadoria, etc.?

Talvez quando a fumaça baixar venham medidas como essas:
  • Imposto para grandes fortunas para custear a saúde;
  • CPMF para custear a proteção social/previdência;
  • Fim do Fator Previdenciário;
  • Convenção 158 para acabar com a rotatividade;
  • Correção da tabela do Imposto de renda.
Porque não?

SINAL DE FUMAÇA!

Como as peças do tabuleiro estão em movimento e o resultado da contenda em disputa, prefiro entender que os primeiros movimentos sejam um sinal de fumaça, chamando para a boa luta, para a mobilização e unificação da esquerda, buscando disputar os rumos do governo, sem ceder ao conservadorismo.

Os movimentos sociais precisam ser “rebeldes competentes”, organizando a luta necessária, não jogando água no moinho da direita. Também não nos deixando levar pelo perigo de raciocinar somente a partir das razões governamentais.

Há um sentimento de mudança. Um desconforto com a política realmente existente no país. Toma lá-dá-cá; corrupção; descaso com a participação do povo; políticas públicas ineficientes.

Devemos canalizar esse descontentamento – que não está somente nas ruas, está dentro das casas do povo brasileiro – para saídas progressistas, caso contrário, poderemos amargar saídas retrógradas (olha o FHC falando da reforma política com propostas preocupantes).

Precisamos achar formas resgatar a confiança na atuação coletiva, na participação cidadã.

Para isso precisamos mobilizar a sociedade.
Mas para mobilizar a sociedade é preciso ousar, ter propostas que encantem o povo.

Devemos ter capacidade de traduzir nossas consignas e descer à morada dos que trabalham para achar os elos organizadores.
Muitas vezes palavras genéricas não mobilizam, não deixam claros os objetivos. Ou podem ter duplas possibilidades, sentidos progressistas ou reacionários.

Alguns exemplos:
Reforma política = fim financiamento privado; etc.
Reforma tributária = Imposto sobre Grandes fortunas para Previdência Social; CPMF para saúde;
Redemocratizar a Mídia = não haver concentração poder econômico; acabar com monopólio;

As brasas estão em movimento e faiscando. Cabe a nós, do movimento popular, desanuviar o contexto e, para não engolirmos mais gás lacrimogênio, construir nossa unidade buscando apontar propostas mobilizadoras, que se possa "pegar com as mãos".

É uma delgada linha que temos que passar, sem ingenuidades e sectarismos, com muita razões convincentes.

domingo, 23 de novembro de 2014

DILMA SENTIU O GOLPE?



As especulações sobre os novos ministros a serem anunciados, especialmente em relação a Katia Abreu e Joaquim Levy, trouxe muita preocupação aos militantes de esquerda. Eu, senti o golpe!

Em se concretizando as indicações, expressa uma visão de buscar o centro (e mais além)  na política e acalmar os mercados, adaptando-se a uma espécie de chantagem. Também mira na recomposição da maioria no congresso Nacional.

Uma visão pragmática, que reage ao ataque golpista patrocinado em várias frentes – judiciário; PF; Congresso; Grande Mídia.

A estratégia é clara, não dar tréguas ao governo, buscando sua destituição ou sangrar até as eleições 2018.

Será que a Presidenta, diante desse cenário sentiu o golpe e teve que pactuar com o inimigo?

“Os homens fazem sua história, mas não nas condições que escolheram” (Marx).

Mas creio que o excesso de pragmatismo não seja a solução para as dificuldades. Pode trazer outras mais sérias como o isolamento da única base social que mantem-se fiel nos momentos difíceis, os movimentos sociais, os trabalhadores.

Confiar nos escorpiões pode ser fatal no final da travessia.

A frustração pela falta de sinalização e de diálogo com o lado popular, pode ser desastroso a médio prazo.

Creio que não devemos ter medo de ousar. O antídoto contra o golpe em gestação é aprofundar as mudanças. É apontar para uma Revolução, uma Revolução Democrática que empodere o povo.

O governo e, a presidente Dilma em especial, precisam se comunicar melhor, consolidando uma relação de confiança com o povo.

Espero que sejam especulações e que o governo venha a público, com medidas concretas,
para tranquilizar os movimentos populares, o povo progressista.

“...Sem confiança nada funciona. Sem confiança o contrato social se dissolve e as pessoas desaparecem, ao se transformarem em indivíduos defensivos lutando pela sobrevivência”. (Castels)

Independente da estratégia palaciana, os movimentos populares, os partidos progressistas, o povo em geral precisa se armar para garantir a necessária ofensiva. Não ter medo de triunfar.

Não ficar no berço esplêndido, esperando pelo governo.

Depois da rebelião húngara de 1956, Lukacs, quando preso e perguntado por um oficial da KGB se estava armado, calmamente levou a mão ao bolso e entregou-lhe uma caneta.

Sim, a caneta, a escrita, as redes sociais são armas importantes.

Mas as ruas são o caminho. Organizar o povo, conscientiza-lo, o desafio.

Definir consignas que mobilizem. Quebrar ovos e cristais se preciso, sem aventureirismo, compreendendo a correlação de forças.

Eu já estou com minha bandeira e o megafone.

Peguei minha caneta, meu Smartphone e meu boné cubano.

Comprei um tênis novo (teremos muito que caminhar) e peguei meu saco de vozes e o meu outro para enfrentar o grande irmão que quer nos manipular, sempre.

Para defender o Governo legitimamente eleito e/ou para não deixá-lo refém do conservadorismo, cobrando as mudanças necessárias e prometidas.

“Porque la democracia no se consolida con odio y miedo sino poniéndola al servicio de la gente”. (Podemos - Espanha)

terça-feira, 18 de novembro de 2014

2014, O ANO QUE NÃO VAI ACABAR!




TRANSPONDO VEREDAS

A conjuntura brasileira vem passando por veredas contraditórias, íngremes, onde as previsões são abaladas, e as certezas não são abundantes.

Por isso é um momento em que os “corações valentes” se destacam e abrem caminhos, consolidam traçados.

Os trabalhadores tem conseguido abrir picadas efetivas no rumo de uma inserção social com mais dignidade.

Como filosofa Guimarães Roda “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente no meio da travessia”. (1)

No processo eleitoral de 2014 abriram-se enormes clareiras. Ficou muito mais evidente a justeza da proposta que aponta a necessidade de uma verdadeira Revolução Democrática no Brasil.

O processo político que está em curso não começou nas eleições deste ano e não vai acabar com a vitória progressista. A direita continua e vai continuar seus ataques.

Foi uma grande vitória, enfrentamos uma ofensiva conservadora e de direita incessante, capitaneada pela grande mídia, sintetizando uma estratégia que era articulada em vários setores.

É correto afirmar que os governos Dilma e Lula tiveram problemas. O PT teve deficiências, equívocos e lacunas. Mas é mais evidente ainda os avanços produzidos. E as urnas mostraram que o povo quer mudança e não quer voltar para trás.

O conservadorismo saiu da toca e está mostrando sua face reacionária. Não deixa de ser positivo, pois agora as coisas estão mais claras e precisamos ser competentes para aproveitar a nitidez política deste momento. Contra a tentativa de retrocessos aprofundar a Revolução Democrática.

A DEMOCRACIA É SUBVERSIVA

Como afirma Adolfo Vazquez, uma democracia que, ao superar os limites, se amplie em um processo ininterrupto de participação. Como a democracia exige uma participação consciente e racional na tomada das decisões que afetam a comunidade, e toda vez em que esta participação é uma exigência de liberdade, a democracia é um valor a que não se pode deixar de aspirar. E ao mesmo tempo em que a realização deste valor requer superar seus limites reais, a democracia, dada sua necessidade de estender-se ou aprofundar-se, é subversiva.

Gostaria de enfatizar um elemento que julgo central para uma efetiva democratização da sociedade e que muitas vezes é secundarizado. Me refiro aos espaços de produção, às relações de trabalho e consequentes relações sociais.

Apesar de extrema importância, não basta disputar “as ondas do rádio e da TV”. Devemos disputar as consciências em sua materialidade, nas relações sociais reais onde, no cotidiano, os trabalhadores constroem seus valores.

Norberto Bobbio diz com razão que a democracia no sistema atual encontra uma barreira insuperável nas portas das fábricas. Precisamos nos voltar para os ambientes de trabalho, democratizando-os, disputando o imaginário dos trabalhadores pois as empresas estão a fazê-lo, onde a meritocracia é o mantra e estão produzindo individualistas.

Também devemos ter presente que a consciência de classe, além dos locais de trabalho, é produzida e veiculada nas ruas, bares, pubs, cozinhas, capelas, centros comunitários e quintais dos subúrbios da classe operária.

Boaventura de Souza Santos resume adequadamente a questão afirmando que o “espaço da produção hoje é mais central do que nunca e a sua hegemonia aumenta com a difusão social da produção, com a ideologia do produtivismo e do mercado, com a compulsão do consumo”.

Ainda concordando com Boaventura, uma das tarefas centrais para a Revolução Democrática consiste na politização do espaço de produção. “A fábrica é um micro-estado onde é possível detectar instituições similares na forma e aparência do campo político liberal, só que muito mais despóticas (o direito da produção, a lealdade à empresa, a distinção entre o público e o privado, a representação dos trabalhadores, as coligações, etc.)”.

O desafio é construir dois tempos coexistentes. O espaço da experiência – não deixar retroceder – e espaço de expectativas – necessidade de avançar substancialmente.

NA TRILHA DO MOVIMENTO SINDICAL

O movimento sindical enfrenta situações complexas. O mundo do capital está horizontalizado, nossos sindicatos ainda são verticais, da era fordista. Têm sido incapazes de se horizontalizar, de tornar-se mais classistas, de incorporar os excluídos. Este é o primeiro desafio, se queremos dar vitalidade aos sindicatos.


O desafio é calibrar as lutas imediatas a um projeto global anticapitalista, “tocar” o dia-a-dia da categoria integrando com as questões gerais, compreendendo e fazendo compreender que a melhoria da saúde, de garantias previdenciárias, salariais, etc., não é efetiva somente com a luta de uma categoria isolada, é necessário unir forças sociais.

Devemos buscar contribuir na construção uma estratégia de longo alcance, ousada e criativa, onde o próprio movimento sindical deve questionar-se de alto a baixo.

“É melhor que seja o movimento sindical a questionar-se a si próprio e por sua iniciativa, até porque, se o não fizer, acabará por ser questionado a partir de fora”, provoca Boaventura Santos.

O sindicalismo já foi mais movimento que instituição. Hoje é mais instituição que movimento.

Temos de rearticular um amplo movimento que tenha bandeiras comuns e ações integradas, superando o sectarismo. O sectarismo, a negação de ouvirmos-nos uns aos outros e compartilhar opiniões na tentativa de construir novas sínteses tem sido muito presente entre nós. O senso comum e a repetição mecânica de velhas e novas “palavras de ordem” substituem a boa e velha prática da observação, do estudo e da discussão.

Como a política é a arte de construir a força social e a política capaz de mudar a realidade, tornando possível no futuro aquilo que hoje parece como uma impossibilidade, o momento impõe oferecer à sociedade alternativas 'que se pode tocar com as mãos'.

O REAL RODA E PÕE ADIANTE (1)

Diante desse contexto afirmar, reafirmar e firmar o timão na direção de uma Revolução Democrática efetiva torna-se imperativo.

A luta por uma reforma política tem que estar casada com a regulamentação da mídia e na construção de canais progressistas de comunicação para contrapor ao golpismo midiático. Regulamentação da mídia e reforma política, ovo ou a galinha. Será possível realizar mudanças democráticas profundas sem antes democratizar a mídia? Creio que a ofensiva deve ser conjunta, concomitante, e necessita de ampla mobilização.

Todavia, a Reforma Política não pode ficar restrita ao sistema eleitoral – sem dúvida que é de extrema importância. Mas devemos buscar o futuro e além , avançando em mecanismos de participação direta e na democratização nas relações de trabalho. Empoderar o povo, eis a grande tarefa. Organizar o povo, eis o grande desafio.

Claro que não podemos desprezar a correlação de forças. Mas para pender para o lado progressista, precisamos incidir com firmeza, coragem e inteligência. Acima de tudo, precisamos ser ofensivos, cunhando consignas que dialoguem com os anseios sociais a fim de colocar em movimento as forças mudancista. Se assim não for, podemos amargar com reformas retrógradas.

O Governo Dilma não pode retroceder nas promessas na campanha pois ficará sem o povo e refém do conservadorismo. Mas é uma equação difícil de solucionar.

O modelo de governabilidade que ainda impera é de pactuação com um congresso ainda mais conservador. A grande mídia continua com um poder brutal. E ainda precisamos consolidar uma organização popular que tenha capacidade de mobilização, ocupando as ruas para sustentar as mudanças.

Urge garantir efetivos mecanismos de empoderamento popular, com ampliação de direitos e reformas estruturais. Criar mecanismos para que a democracia chegue nos locais de trabalho onde vigora outro código civil e penal.

Para isso o movimento social e o movimento sindical, em especial, necessitam remexer-se, chacoalhar-se para estar a altura do momento histórico.

Temos um mundo cheio de protestos. Pessoas que se mobilizam porque acham que tem algo muito errado. Mas existem muitos muros que separam estas lutas, “tantos diques as impedem de fluírem umas nas outras”. O desafio é romper essas represas e unificar nossos protestos.

Talvez o momento seja o de formular perguntas para essa realidade complexa. Respostas estão sendo dadas e respostas precisam ser buscadas. Para isso precisamos de perguntas bem elaboradas para que achemos, juntos, as respostas.

“Perguntando, caminhamos”, dizem os Zapatistas. Nós perguntamos não só porque não temos todas certezas sobre o caminho, “porque perguntar pelo caminho é parte do próprio processo revolucionário”, nos lembra Holloway.

Acima de tudo o momento impõe encantar o povo. Quando o povo sente firmeza e clareza sobre o que buscar e lutar não vacila e vai à luta.

E unir a esquerda, torna-se tarefa primordial, o antídoto à tentativa raivosa do reacionarismo de impor retrocessos.

Tudo com urgência meteórica, nos caminhos do lado iluminado do cometa Brasil, não permitindo que o lado escuro descarregue as baterias populares.

O tempo "ruge" e como bem diz Saul Leblon, a esquerda não tem mais o direito de perguntar que horas são.

Eis os desafios, desanuviar, achar os caminhos. “A liberdade é assim, movimentação”.(1)

(1) Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas

Texto compeleto:

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

SINDICALISMO E A REVOLUÇÃO DEMOCRÁTIVA - PRIMEIRA PARTE




2014, O ANO QUE NÃO VAI ACABAR!

A conjuntura brasileira vem passando por veredas contraditórias, íngremes, onde as previsões são abaladas, e as certezas não são abundantes.

Por isso é um momento em que os “corações valentes” se destacam e abrem caminhos, consolidam traçados.

Os trabalhadores tem conseguido abrir picadas efetivas no rumo de uma inserção social com mais dignidade.

Como filosofa Guimarães Roda “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente no meio da travessia”. (1)

No processo eleitoral de 2014 abriram-se enormes clareiras. Ficou muito mais evidente a justeza da proposta que aponta a necessidade de uma verdadeira Revolução Democrática no Brasil. Revolução com R maiúsculo onde a participação popular seja efetiva, que avancemos para uma democracia substantiva em todos setores da sociedade.

O processo político que está em curso não começou nas eleições deste ano e não vai acabar com a vitória progressista. A direita continua e vai continuar seus ataques.

Foi uma vitória hercúlea, enfrentamos uma ofensiva conservadora e de direita incessante, capitaneada pela grande mídia, sintetizando uma estratégia que era articulada em vários setores. Desde o judiciário que virou palco para essa estratégia, até o legislativo – onde muitos estavam entrincheirados, buscando conservar os privilégios dos de cima, fantasiados de defensores das mudanças (e da base aliada) - , passando pelo mercado financeiro que politizou a bolsa de valores.

As candidaturas oposicionistas faziam parte desse cenário. Isso foi ficando evidente, quando o jogo foi jogado, inclusive com a participação da candidatura de Eduardo Campos e depois Marina (pelo visto haviam combinações prévias entre o bloco PSDBista e PSBista).

É correto afirmar que os governos Dilma e Lula tiveram problemas. O PT teve deficiências, equívocos e lacunas. Mas é mais evidente ainda os avanços produzidos. E as urnas mostraram que o povo quer mudança mas não quer voltar para trás.

O conservadorismo saiu da toca e está mostrando sua face reacionária. Não deixa de ser positivo, pois agora as coisas estão mais claras e precisamos ser competentes para aproveitar a nitidez política deste momento. Contra a tentativa de retrocessos aprofundar a Revolução Democrática.

A DEMOCRACIA É SUBVERSIVA

Com a ajuda do Juarez Guimarães, entendemos por Revolução Democrática a  “busca de uma nova estrutura de direitos e deveres que se refere tanto à distribuição da propriedade, as formas de organização dos tributos e dos gastos públicos, as relações de gênero, as relações de cidadania e culturas étnicas, as questões ecológicas, questões que dizem respeito aos direitos da classe trabalhadora.

Significa, também, reformar as instituições que organizam quem decide, porque decide, como se decide. É operar uma mudança de fundamentos do Estado brasileiro.

Portanto o Processo de revolução democrática é o meio para construir novas legitimidades e novas bases sociais, novos padrões regulatórios públicos na economia e capacidades de governos que, juntos, podem catalisar mudanças estruturais na correlação de forças”. Construindo uma nova hegemonia, acumulando forças na batalha das classes.

O processo eleitoral de 2014 trouxe luzes ao debate. É bom lembrar que quase todos esses temas (gênero; discriminação racial; direitos trabalhistas; Independência Banco Central e Papel Bancos públicos; entre outros) foram cotejados no embate eleitoral, obrigando a posicionamentos. A candidatura Dilma, corajosamente, posicionou-se positivamente sobre esses temas.

Portanto, facilita a continuidade da contenda, buscando avançar na construção de uma cultura socialista e democrática.

A sociedade capitalista em geral, e a brasileira de maneira muito especial, impõem limites para a plenitude da democracia. Mas, essas dificuldades precisam ser enfrentadas para que  a democracia seja estendida e aprofundada, transpondo os limites da democracia formal, política ou parlamentar – sem abandoná-la – a uma democracia real, econômica e social.

Como afirma Adolfo Vazquez, “uma democracia que, ao superar os limites, se amplie em um processo ininterrupto de participação(...)Como a democracia exige uma participação consciente e racional na tomada das decisões que afetam a comunidade, e toda vez em que esta participação é uma exigência de liberdade, a democracia é um valor a que não se pode deixar de aspirar. E ao mesmo tempo em que a realização deste valor requer superar seus limites reais, a democracia, dada sua necessidade de estender-se ou aprofundar-se, é subversiva.

POLITIZAÇÃO DO ESPAÇO DE PRODUÇÃO

Gostaria de enfatizar um elemento que julgo central para uma efetiva democratização da sociedade e que muitas vezes é secundarizado. Me refiro aos espaços de produção, às relações de trabalho e consequentes relações sociais.

Como frisou Lukaks, a estrutura dos elementos econômicos fundamentais da sociedade não é alcançada somente pelas tempestades que agitam o céu da política” , acrescentaria “o céu da grande mídia”.

Na formação da consciência de classe é estruturador a materialidade. A vitória de Dilma, superando todo ataque midiático-politico-econômico, provavelmente teve como elemento importante o voto da nova classe trabalhadora, que inegavelmente teve avanços materiais e, apesar de toda armação midiática, posicionou-se positivamente em relação à candidatura Dilma.

Claro que não podemos desprezar o papel da superestrutura simbólica, da verdadeira violência praticada pelo martelar constante de ataques ao governo, às esquerdas, principalmente ao PT.

Não podemos desconsiderar que, mesmo que minoritariamente, contingente considerável entrou na onda.

A adesão da nova classe trabalhadora é fluida, não consolidada pois está em disputa e, para que a dominação da burguesia seja efetiva, uma condição inelutável é que as outras classes se iludam, permanecendo com uma consciência de classe confusa.

Como nos ensina Marilena Chaui, essa nova classe trabalhadora “é uma classe retalhada pelas novas condições de trabalho na era do neoliberalismo. Um agrupamento que foi e é coagido a entender a sua inserção no mundo como uma relação unilateral com a gôndula do supermercado e o limite do cartão de crédito”.

Portanto, firmar e afirmar o caráter de classe, da disputa de classe, é essencial neste momento – muitos companheiros(as) anestesiados, dormindo nos berços esplêndidos palacianos, esqueceram que a luta de classe continua movendo a sociedade.

Apesar de extrema importância, não basta disputar “as ondas do rádio e da TV”. Devemos disputar as consciências em sua materialidade, nas relações sociais reais onde, no cotidiano, os trabalhadores constroem seus valores.

Norberto Bobbio diz com razão que a democracia no sistema atual encontra uma barreira insuperável nas portas das fábricas. Precisamos nos voltar para os ambientes de trabalho, democratizando-os, disputando o imaginário dos trabalhadores pois as empresas estão a fazê-lo, onde a meritocracia é o mantra e estão produzindo individualistas.

Também devemos ter presente que a consciência de classe, além dos locais de trabalho, é produzida e veiculada nas ruas, bares, pubs, cozinhas, capelas, centros comunitários e quintais dos subúrbios da classe operária.

Portanto além de acesso ao ensino superior, precisamos debater novos currículos pois as Universidades estão formando “coxinhas”. Além de garantir uma segurança alimentar devemos buscar organizar o povo onde vivem e em seu viver.

Tarso Genro reflete sobre isto afirmando que “talvez configure-se neste período, um certo tipo de 'hegemonia passiva', na qual os dominados ainda não encontraram novos caminhos, e a força das transformações materiais e culturais, por si só, opera na consolidação do poder dos monopólios privados, cuja 'legitimação' é amparada pelo domínio do conhecimento e pelo controle quase total da informação”. É preciso criar elementos para botar uma cunha nessa lógica. Buscar formas de disputar efetivamente a materialidade e os valores da classe trabalhadora.

Boaventura de Souza Santos resume adequadamente a questão afirmando que o “espaço da produção hoje é mais central do que nunca e a sua hegemonia aumenta com a difusão social da produção, com a ideologia do produtivismo e do mercado, com a compulsão do consumo. A articulação entre o isolamento político do operariado e a difusão social da força de trabalho assalariada é responsável pela situação paradoxal de a força de trabalho assalariada ser cada vez mais crucial para explicar a sociedade contemporânea e o operariado ser cada vez menos importante e menos capaz de organizar a transformação não capitalista”.

Ainda concordando com Boaventura, uma das tarefas centrais para a Revolução Democrática consiste na politização do espaço de produção. “A fábrica é um microestado onde é possível detectar instituições similares na forma e aparência do campo político liberal, só que muito mais despóticas (o direito da produção, a lealdade à empresa, a distinção entre o público e o privado, a representação dos trabalhadores, as coligações, etc.)”.

A tendência tem sido não tratar com prioridade o cotidiano do trabalho, as relações de produção. Creio ser estratégico para transformações mais profundas a democratização dos locais de trabalho buscando garantias de efetiva liberdade de organização nos ambientes laborais (Delegados Sindicais/ Comissões de Empresa). Também é chave para isso garantias contra demissões. Fico um tanto perplexo diante do fato de a Convenção 158 da OIT não tenha sido regulamentada nos anos de governo Lula/Dilma.

Porque não garantir prerrogativas para os Sindicatos fiscalizarem os ambientes de trabalho, dentro da estrutura do SUS? Com certeza evitaríamos muitas mortes e adoecimentos. Mas claro que isto é contra a lógica do capitalismo e, é por isso, ser premente lutar por esses objetivos.
Portanto, descer à morada oculta dos ambientes de trabalho, compreender e interagir com as complexas relações de trabalho e mesmo o não trabalho, é essencial para a construção de um Bloco Histórico potente para a efetivação de uma substantiva Revolução Democrática.

O desafio é construir dois tempos coexistentes. O espaço da experiência – não deixar retroceder – e espaço de expectativas – necessidade de avançar substancialmente.

NA TRILHA DO MOVIMENTO SINDICAL

O movimento sindical enfrenta situações complexas. O mundo do capital está horizontalizado, nossos sindicatos ainda são verticais, da era fordista. Têm sido incapazes de se horizontalizar, de tornar-se mais classistas, de incorporar os excluídos. Este é o primeiro desafio, se queremos dar vitalidade aos sindicatos.

As causas mais profundas das contradições do capital, de tendências explosivas, devem ser atacadas em todos os lugares, com iniciativas que extrapolem a luta local, viabilizando iniciativas internacionais, intersindicalmente e com outros movimentos sociais.

Ao centrar-se prioritariamente nas questões do emprego e do salário, os sindicatos tenderam a desinteressar-se dos desempregados, das mulheres, dos aposentados e dos jovens à procura do primeiro emprego, e, ao fazê-lo, descuidaram de um campo imenso de solidariedade potencial. Mas por outro lado, em relação aos trabalhadores com emprego, abordamos apenas por uma pequena fração das suas preocupações.

De fato, os trabalhadores que estão empregados e recebem um salário Não basta melhorias no sistema eleitoral. A democracia necessita de avançar mais, chegar aos locais de trabalho, a uma efetiva participação direta da sociedade.confrontam-se no seu cotidiano com muitos problemas que afetam decisivamente a sua qualidade de vida e a sua dignidade enquanto cidadãos para os quais temos dificuldades de achar respostas adequadas.

O desafio é calibrar as lutas imediatas a um projeto global anticapitalista, “tocar” o dia-a-dia da categoria integrando com as questões gerais, compreendendo e fazendo compreender que a melhoria da saúde, de garantias previdenciárias, salariais, etc., não é efetiva somente com a luta de uma categoria isolada, é necessário unir forças sociais.

Necessitamos ter um “norte” definido, com unidade de ideal, para além do mero discurso. Não podemos almejar o poder pelo poder, sem conteúdo transformador, o que acaba por reproduzir a mesmice na inércia, reproduzindo a lógica do capital. Nunca perder de vista que existe uma disputa entre classes, por mais que aparentemente isso esteja diluído.

Devemos buscar contribuir na construção uma estratégia de longo alcance, ousada e criativa, onde o próprio movimento sindical deve questionar-se de alto a baixo.

“É melhor que seja o movimento sindical a questionar-se a si próprio e por sua iniciativa, até porque, se o não fizer, acabará por ser questionado a partir de fora”, provoca Boaventura Santos.

O sindicalismo já foi mais movimento que instituição. Hoje é mais instituição que movimento. O campo de luta prioritário tem sido nos gabinetes e corredores governamentais e menos nos locais de trabalho e nas ruas. Muitas vezes a pauta dos trabalhadores é delegada, rebaixada, condicionada pelas iniciativas governamentais ou empresariais. Esse processo de institucionalização precisa ser superado.

A “força centrípeta do Estado” e as dificuldades impostas por anos de neoliberalismo condicionaram os movimentos à acomodação e ao processo de passividade diante das poderosas estruturas de governo.

A realidade está impondo a necessidade de reinventar nossa atuação. Reinventar não significa negar os elementos positivos até aqui alcançados, mas compreender seus limites e a necessidade de superar barreiras. Ter cuidado com o acomodamento e a burocratização impostos pela rotina despolitizada. Os conflitos despolitizados atestam a falta de capacidade de elaboração e uma falta de direção comum.

Temos de rearticular um amplo movimento que tenha bandeiras comuns e ações integradas, superando o sectarismo. O sectarismo, a negação de ouvirmo-nos uns aos outros e compartilhar opiniões na tentativa de construir novas sínteses tem sido muito presente entre nós. O senso comum e a repetição mecânica de velhas e novas “palavras de ordem” substituem a boa e velha prática da observação, do estudo e da discussão.

Como a política é a arte de construir a força social e a política capaz de mudar a realidade, tornando possível no futuro aquilo que hoje parece como uma impossibilidade, o momento impõe oferecer à sociedade alternativas 'que se pode tocar com as mãos'.

O REAL RODA E PÕE ADIANTE (1)

Diante desse contexto afirmar, reafirmar e firmar o timão na direção de uma Revolução Democrática efetiva torna-se imperativo.


Carece politizar os ambientes de trabalho, as relações sociais concretas, onde a consciência de classe se torna viva, para o bem ou para o mal. Compreender e organizar os  trabalhadores através de suas carências e expectativas é urgente.

A nova classe trabalhadora precisa ser decifrada. O ímpeto da juventude precisa ser canalizado para avanços progressistas e disputar as consciências, que  em alguns setores avança preocupantemente no rumo conservador e mesmo reacionário.

A luta por uma reforma política tem que estar casada com a regulamentação da mídia e na construção de canais progressistas de comunicação para contrapor ao golpismo midiático. Regulamentação da mídia e reforma política, ovo ou a galinha. Será possível realizar mudanças democráticas profundas sem antes democratizar a mídia? Creio que a ofensiva deve ser conjunta, concomitante, e necessita de ampla mobilização.

Todavia, a Reforma Política não pode ficar restrita ao sistema eleitoral – sem dúvida que é de extrema importância. Mas devemos buscar o futuro e além , avançando em mecanismos de participação direta e na democratização nas relações de trabalho. Empoderar o povo, eis a grande tarefa. Organizar o povo, eis o grande desafio.

Claro que não podemos desprezar a correlação de forças. Mas para pender para o lado progressista, precisamos incidir com firmeza, coragem e inteligência. Acima de tudo, precisamos ser ofensivos, cunhando consignas que dialoguem com os anseios sociais a fim de colocar em movimento as forças mudancista. Se assim não for, podemos amargar com reformas retrógradas.

O Governo Dilma não pode retroceder nas promessas na campanha pois ficará sem o povo e refém do conservadorismo. Mas é uma equação difícil de solucionar.

O modelo de governabilidade que ainda impera é de pactuação com um congresso ainda mais conservador. A grande mídia continua com um poder brutal. E ainda precisamos consolidar uma organização popular que tenha capacidade de mobilização, ocupando as ruas para sustentar as mudanças.

Urge garantir efetivos mecanismos de empoderamento popular, com ampliação de direitos e reformas estruturais. Criar mecanismos para que a democracia chegue nos locais de trabalho onde vigora outro código civil e penal.

Para isso o movimento social e o movimento sindical, em especial, necessitam remexer-se, chacoalhar-se para estar a altura do momento histórico.


O momento é estimulante. A democracia está em debate e em questão, pois o ódio à democracia também expressa-se claramente. O momento pode tornar-se educativo pois o debate acirra-se e chama a atenção de grande público e as máscaras caem, as pessoas tem que se posicionar. Até a mídia está tendo que rebolar para passar-se como neutra. Como não sabem gingar não estão conseguindo.

No Congresso Nacional, a não aprovação do decreto presidencial sobre a participação popular, mostrando claramente as posições dos parlamentares e partidos.

Na campanha o debate da discriminação contra homoafetividade veio à tona e mostrou quem é quem, como também os preconceitos contra pobres, nordestino, etc.

Mas é complexa a solução da equação de toda essa confusão. Para que seja positiva e aproveitemos para aprofundar as mudanças, demanda ampla unidade e capacidade de mobilização e elaboração.

Não podemos criar diálogos com surdos que não querem ouvir. Está clara a estratégia do conservadorismo, apostar numa crise a cada esquina. O diálogo deve ser priorizado com os setores progressistas, com os movimentos sociais, mais para o lado esquerdo do espectro político.

FHC afirmou que não quer diálogo, “a confiança é como um vazo de cristal, uma pequena rachadura danifica a peça inteira”, afirmou. Acho que não se faz mudanças (omelete) sem quebrar os ovos que a serpente reacionária deixou chocando e também, se preciso, porque não, quebrar alguns cristais.

Temos um mundo cheio de protestos. Pessoas que se mobilizam porque acham que tem algo muito errado. Mas existem muitos muros que separam estas lutas, “tantos diques as impedem de fluírem umas nas outras”. O desafio é romper essas represas e unificar nossos protestos.

Talvez o momento seja o de formular perguntas para essa realidade complexa. Respostas estão sendo dadas e respostas precisam ser buscadas. Para isso precisamos de perguntas bem elaboradas para que achemos, juntos, as respostas.

“Perguntando, caminhamos”, dizem os Zapatistas. Nós perguntamos não só porque não temos todas certezas sobre o caminho, “porque perguntar pelo caminho é parte do próprio processo revolucionário”, nos lembra Holloway.

Acima de tudo o momento impõe encantar o povo. Quando o povo sente firmeza e clareza sobre o que buscar e lutar não vacila e vai à luta.

E unir a esquerda, torna-se tarefa primordial, o antídoto à tentativa raivosa do reacionarismo de impor retrocessos.

Tudo com urgência meteórica, nos caminhos do lado iluminado do cometa Brasil, não permitindo que o lado escuro descarregue as baterias populares.

O tempo "ruge" e como bem diz Saul Leblon, a esquerda não tem mais o direito de perguntar que horas são.

Eis os desafios, desanuviar, achar os caminhos. “A liberdade é assim, movimentação”.(1)

(1) Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas