domingo, 14 de julho de 2013

RICARDO, CORAÇÃO DE BANCÁRIO



No meu caminho tinha um coração,
Tinha um coração no meu caminho.

Estava caminhando, pensamentos ao longe, encontrei um coração palpitando na calçada, sem o corpo.

Todos passavam e não olhavam para baixo, não viam. Seguiam pensando ao longe.

Pensando perto, comigo mesmo, vi o órgão vermelho molhado de sangue. Parei, peguei-o.
O coração estava quente, acho que até ouvi bater, tum.tum.tum...

Olhei para todos os lados e, desesperadamente, passei a procurar seu corpo.

Entrei em uma agência bancária ao lado de onde encontrei o coração e perguntei afoito,
“será de alguém esse coração, ele está vivo ainda, precisa de um corpo...e de um cérebro para comandar”.

Um bancário aproxima-se assustado e me diz,
“poderia ser meu pois quase não controlo o meu. Não aguento tanta humilhação, pressão, exigências sem fim. Não consigo colocar meu coração a serviço de minha família. Minha filhinha quando chego em casa e ela ainda está acordada, coloca seu ouvido no lado esquerdo de meu peito e fica em silêncio até adormecer”.

Continuo, com alta angústia, sem saber de que corpo é esse coração que teima em continuar batendo, caliente.

Aproxima-se um outro bancário da agência, parece ser o gerente, e me diz,
“poderia ser meu, mas não é. Meu coração quase saiu pela boca quando eu e minha família fomos feitos reféns por assaltantes. O bandidos sabiam de toda minha rotina. O que mais me surpreendeu foi que tinham detalhes dos poucos momentos de convivência familiar. Fotos de minha ida ao circo, à lanchonete, de meu filho chegando na escola. Quase saí de mim. Aquela foto de meu filho, mostrada por eles, assustou muitíssimo mais do que aquela pistola em minha cabeça”.

Senti aquele coração se apertar entre minhas mãos, se é que isso é possível.

Não desisti, continuei procurando, gritando, indagando,
“de quem é esse coração que insiste em continuar pulsando?!”

Aproximou-se de mim uma bancária,
“não é meu. O meu acho que não pulsa mais. Acabei de ser demitida. Me dedicava totalmente ao banco, fui premiada recentemente como melhor vendedora da região sul. Nunca imaginei que isso aconteceria agora. E o pior, não sei os motivos, não tenho mais chão, flutuo num desespero total”.

O coração quase cai ao chão numa pulsação aguda, mas consigo segurar.

Um outro bancário se aproxima e fala,
“não é meu, mas poderia ser, eu todo dia choro para dentro pensando na possibilidade de ser demitido, descomissionado, assaltado. Choro, choro muito para dentro quando sou humilhado pela pressão cotidiana para cumprir as metas. Pô, sempre cumprimos as metas! A humilhação parece ser preventiva pois se não cumprissemos, se não cumprirmos sabemos que seremos dispensados, punidos!

Me preocupo enormemente, não posso deixar esse coração parar de pulsar. Ele não viverá muito tempo sozinho, precisa de um corpo. Ou será que é um coração diferente?
Talvez pertença a muitos, precisa de muitos corpos para adotá-lo.

Me vejo com dois corações, o meu biológico e o de todos, social e coletivo, e me convenço que, para mantê-los vivos por muito tempo, significa buscar ambientes mais respeitosos, com mais companheirismo, mais solidariedade.

Saio da agência bancária e vou para a rua, sento no banco de uma praça, olho para aquele coração que teima em bater e não consigo parar de pensar.

A razão dos bancos (da elite) busca controlar nosso cérebro, mas o que eles não sabem, ou fazem de conta que não sabem, ou fazem de tudo para que nós não tomemos consciência, é que o coração não consegue controlar o cérebro.

E nosso cérebro, nossa consciência precisa de clareza para não deixar nosso coração sem corpo.

Até esse momento, onde termino esse relato, o coração continua palpitando. Estamos revezando para bombá-lo e mantê-lo vivo, até que surja o corpo para reabrigá-lo.

Dei uma saidinha para descansar. Olho para trás e vejo uma fila enorme de pessoas esperando sua vez de cuidar daquele coração. São milhares...

Homenagem a um colega bancário que foi vítima de AVC relacionado ao trabalho.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

REMÉDIO, FERRAMENTA DE TRABALHO?




Ao ler a reportagem das páginas quatro e cinco da edição da segunda-feira, 10 de junho, manchete de capa de Zero Hora, vi uma luta de muitos anos tendo visibilidade num dos jornais de maior circulação do país. Mas também me entristeci. Os dados confirmam um sofrimento com o qual convivo há muitos anos como dirigente sindical e como bancário. O número de trabalhadores que usa drogas e está afastado do trabalho aumentou muito no Rio Grande do Sul.


Sob o título “Licenças por uso de drogas quase triplicam”, a reportagem mostra que entre 2006 e 2012 o número de afastamentos do trabalho por uso de drogas lícitas e ilícitas aumentou 179%.


Entre os bancários cresce o número de colegas que precisa usar medicamento para a dor ou antidepressivos e antiansiolíticos para conseguir trabalhar e atender às exigências por resultados e cumprimento de metas, muitas delas inatingíveis. Ao abrir as gavetas das mesas de trabalho dos bancários, é comum encontrar caixas de medicamentos. Os remédios tornaram-se ferramentas de trabalho.


Esse fenômeno intensificou-se a partir da década de 1990. A reengenharia com seus novos métodos de gestão trouxe consequências aos trabalhadores, especialmente na questão da saúde psíquica. Cresceram os casos de depressão devido às exigências, repercutindo no aumento de suicídios ligados ao trabalho.


Pesquisa de 2009, do professor Marcelo Augusto Finazzi Santos, da Universidade de Brasília, demonstrou que de 1996 a 2005, a cada 20 dias, um bancário se suicidou. Motivos: pressões por metas, excesso de tarefas e medo do desemprego.


Já em 1997, em estudo organizado pelo SindBancários com a colaboração do Departamento de Medicina Social da UFRGS, com 12 mil bancários pesquisados em 194 municípios gaúchos, cerca de 56% relatavam sofrimento em agências. Em torno de 9,2% admitiram que o pensamento de acabar com a vida já havia passado pela sua cabeça. Infelizmente essa realidade piorou.


No mês passado, perdemos um colega bancário no Interior do Estado. A causa diagnosticada é um infarto fulminante. Porém, as circunstâncias da morte revelam sofrimento e solidão. Pouco antes de morrer, a caminho do hospital, ele disse à esposa que aquilo tinha a ver com o seu trabalho.


Lutamos muito para mudar essa lógica em que o trabalhador não encontra satisfação pessoal, mas sofrimento. Por isso reportagens como a de Zero Hora são importantes para dar visibilidade a um grave problema social. Modelos de gestão que visam tão somente os negócios, o lucro, a rentabilidade não podem estar acima da vida.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

SINDICALISMO CHOROSO



Que pueril ingenuidade a de apresentar a própria impaciência como argumento teórico!” (F. Engels; Programa dos Comunardos-bIanquistas, no jornal social-democrata alemão Volksstaat*2 ,1874,

Em 1920, ainda recuperando-se dos ferimentos sofridos pelo atentado a tiros de 1918, Lenin escreveu um panfleto em que condenou a extrema esquerda européia pelo seu radicalismo, por seu excesso de "purismo". Naquela ocasião, definiu o "esquerdismo" deles como uma "doença infantil do comunismo".

Acho que é possível evocar esse jogo de palavras para a atualidade, onde estamos vendo setores de “esquerda” resvalar para a crítica sistemática e vazia, não conseguindo desenvolver a necessária análise da complexidade do momento.

A criança mimada esperneia quando tem alguma frustração. Quando adolecente, via-de-regra, revolta-se contra os pais. Na política marxista aprendi que não podemos nos dar ao luxo do infantilismo sob o risco de não analisarmos adequadamente a realidade e sermos condizidos a uma prática que fortalece nossos inimigos.

A política, quando adjetivada em excesso, fraciona, confunde. Acaba por cair na polarização do bem contra o mal. Nós, os corajosos contra os covardes. Nós os éticos contra os que flertam com os corruptos. Nós os combativos contra os pelegos.

A realidade é mais complexa e o momento impõe a capacidade de compreender as várias nuances da conjuntura. É essencial a busca intransigente da unidade. Precisamos ter a capacidade da tolerância, compreender as limitações de todos e não operarmos a política oportunista da adjetivação a todos e a tudo, escondendo objetivos obcecados de disputas de espaços e aparatos.

Essas posições oportunistas que são contra tudo e a todos, sem apontar saídas, é uma visão que cada dia tem menos audiência. Os joãozinhos do passo certo é uma fórmula fácil, mas de fôlego curto.

A relação do movimento com governos de esquerda é um debate histórico do movimento dos trabalhadores. Temos certeza de que é pressuposto manter-nos na trincheira, defendendo os direitos dos trabalhadores, de forma autônoma.

Mas é essencial, também, envolver os trabalhadores na mudança social, refletir incessantemente na busca de formas mobilizatórias para a necessária resistência aos ataques e na luta para termos avanços sociais, sem botar água no moínho da direita, jogando fora a água, a bacia e o nenem.

Se somente coragem resolvesse o problema, tenho certeza que estariamos em melhor situação. Temos, no movimento sindical, valorosos e corajosos companheiros. Mas o bicho é mais cabeludo, já estou careca de saber.

Não temos o direito de ser principistas infantis. “O governo me traiu, me frustrou”. Só se frustra quem se ilude. Devemos sempre ter claro as limitações do Estado e que as mudanças ocorrem e ocorrerão através da luta social.

Como afirma Boaventura Santos, hoje precisamos de rebeldes competentes, que devem conjugar razões convincentes a paixões mobilizadoras.

Vivemos em uma sociedade individualizada, onde ocorrem muitas mobilizações, mas de forma dispersa. Um primeiro desafio: unir todos os movimentos em uma pauta apaixonante e mobilizadora.

Um outro elemento é conseguirmos sair da pauta da direita que prega o moralismo intenso. Isso sem transigir com a corrupção e ao abandono de compromissos com os trabalhadores.

Temos claro que o movimento sindical está com dificuldades de dar as respostas devidas para a realidade. Mas essa dificuldade não é de direção, como o discurso fácil de quem só quer disputar aparatos. ah, se fosse tão simples!

As respostas devem ser buscadas, mas não existe receita de bolo. O caminho se descobre ao caminhar. “... seria simplesmente um charlatão quem pretendesse inventar para os operários uma receita que desse antecipadamente soluções adequadas para todas as circunstâncias da vida ou prometesse que na política do proletariado revolucionário não surgirão nunca dificuldades nem situações complicadas”. (Lênin - Esquerdismo Doença infantil do comunismo, pág. 29).

Compreender os fatores pelos quais lutamos e atuamos em um mesmo objetivo, é a questão essencial. Se o que nos une é a indignação contra a opressão aos trabalhadores; o inconformismo com o modo de produção capitalista; a firme convicção de que é necessário um novo sistema social, socialista, onde a solidariedade, a igualdade substantiva, a liberdade devem ser seus pilares, certamente iremos juntos dando nossa contribuição na caminhada necessária.

Precisamos conscientemente compreender as dificuldades e achar, na prática e na teoria, saídas emancipatórias.

Mas para isso necessitamos definir um “norte”, com unidade de ideal, dentro da ética revolucionária, para além do mero discurso. 

Não podemos almejar o poder pelo poder, sem conteúdo transformador, o que acaba por reproduzir a mesmice na inércia, reproduzindo a lógica do capital. Nunca perdendo de vista que existe uma disputa entre classes, por mais que aparentemente isso esteja diluído.

Devemos buscar contribuir na construção de uma estratégia de longo alcance, ousada e criativa. Para isso talvez o próprio movimento sindical (todos os atores, não só os que eu combato), terá que se questionar de alto a baixo. 

“É melhor que seja o movimento sindical a questionar-se a si próprio e por sua iniciativa, até porque, se o não fizer, acabará por ser questionado a partir de fora (Boaventura, p. 384, Gramática do tempo)

A realidade está impondo a necessidade de reinventar nossa atuação. Reinventar não significa negar os elementos positivos até aqui alcançados, mas compreender seus limites e a necessidade superar barreiras. 

É inegável a saturação da relação política, fruto da difícil realidade e da falta de objetivos comuns. Mas também é consequência do acomodamento, da burocratização imposta pela rotina despolitizada. Os conflitos despolitizados atestam a falta de capacidade de elaboração e uma falta de direção comum.

Para superar vejo importante que tenhamos propostas que unifiquem politicamente, onde seja resgatada a unidade na ação, definindo coletivamente as estratégias, mas que coletivamente também sejam cobradas responsabilidades. Isso tudo implementado com a máxima ampliação de pessoas envolvidas na militância.

Nesse momento de dificuldades do sindicalismo, mais do que nunca, precisamos incorporar ativistas para potencializar a construção da luta.

Sem choro nem vela, sem ranços, precisamos defender um sindicalismo ativo e inquieto, mas também competente para mobilizar paixões com razões convincentes.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

NÃO DEIXEM QUE ARRANQUEM SUA LÍNGUA


Depois de uma peregrinação que durou dez dias, a caravana da Oficina Literária do SindBancários chegou a Assunção para o lançamento do Livro “Esta Terra tem Dono”. A obra foi escrita por oficineiros coordenados pelo escritor Alcy Cheuiche. Os contos que ilustram as origens dos povos do Mercosul foram escritos em português e traduzidos para o espanhol e para o guarani.

Neste vídeo, um dos tradutores da equipe de Assunção, Mauro Lugo, lê em guarani a minha apresentação, escrita em português e traduzida para esse idioma. Essa apresentação aconteceu na Universidade de Assunção, capital do Paraguai, em 23 de novembro. O livro e a caravana foram muito bem recebidos também no Uruguai e na Argentina, onde foram lançados em dias anteriores.

Abaixo reproduzo a apresentação

Não deixem que arranquem sua língua

Eduardo Galeano em um dos livros da trilogia Memória do Fogo conta uma história que merece ser reproduzida. O fato ocorreu em 1767, nas Missões.

Nas gráficas das missões paraguaias tinham sido feitos alguns dos melhores livros impressos na América colonial. Eram livros religiosos, publicados em língua guarani, com letras e gravuras que os índios talhavam em madeira.

Nas missões falava-se o guarani e lia-se o guarani. A partir da expulsão dos jesuítas, é imposta aos índios a língua castelhana, obrigatória e única.

Ninguém se resigna a ficar mudo e sem memória. Ninguém obedece.”

(As Caras e as Máscaras, Eduardo Galeano, Editora Nova Fronteira)

Os bancários tem a língua afiada ao denunciar as injustiças; ao convocar para a luta; ao debater os contextos; para expressar a paixão; para afirmar e para questionar.

O Sindbancários é produto de uma tradição de protagonismos e de não se vergar ao que é imposto.

O livro que estamos apresentando me tocou sobremaneira em sua proposta. Primeiramente, através de contos, retratar a cultura comum de países que foram forjados a ferro e fogo, mas também como integração de povos.

Em segundo lugar, escrito em três línguas, português, espanhol e, com certo ineditismo, o guarani. Sem o guarani diminuiria a força dessa publicação.

Nesse século XXI, quando presenciamos novas tentativas de impor padrões, buscando submeter culturas, surge um livro que resgata a tradição missioneira de não se dobrar ao instituído, preservando a memória de resistência. Não é o castelhano, é a cultura americana que tenta tornar cosméticas as expressões populares.

Resgatamos o Guarani, afirmamos o espanhol, reafirmamos o português e, acima de tudo, pela cultura, integramos as pessoas através do fazer e da memória. Ninguém vai ficar insensível a esse projeto. Somos herdeiros desse espírito de ousadia. Como dizia Marx, somos radicais porque tomamos as coisas pela raiz, e a raiz, para o homem, é o próprio homem!

Resgatar a memória e a palavra, “soltando a língua” e a escrita é uma enorme contribuição para todas gerações.

Quero agradecer com muita ênfase a contribuição do amigo Alcy Cheuiche, parceiro de longa data. É mais uma edição das oficinas literárias do SindBancários, que já produziram cinco livros de excelente qualidade, sempre conduzidas com categoria pelo mestre Alcy.

Nossa gratidão aos escritores, que dedicaram preciosas horas de suas vidas a esta empreitada. Acima de tudo parabéns pelo resultado, surpreendente e de excelente qualidade. Agradeço também aos tradutores, que fizeram um trabalho esmerado, honrando os textos originais.

Um agradecimento especial aos meus colegas escritores bancários, verdadeiros herdeiros da garra guaraní e da solidariedade como missão de vida.

Mauro Salles Machado
Presidente do Sindbancários



sábado, 1 de setembro de 2012

ILUSÃO OU CONCEPÇÃO SINDICAL?




Não sou daqueles que pratica a política do não à tudo para marcar posições. Acredito na busca da unidade e de consensos que conduzam à luta e conquistas.

O momento exige a construção de propostas que unifiquem os trabalhadroes e potencializem a construção de grandes movimentos ofensivos unitários.

Precisamos resgatar as grandes causas, propostas que superem a pulverização do movimento sindical que via-de-regra gasta energias somente em lutas por categoria e disputas por espaços de poder.

A proposta apresentada pelo sindicato dos metalúrgicos do ABC de “Acordo Coletivo com Propósito Específico”, não contribui para esses objetivos. Mais ainda, abre as portas para retrocessos.

O elemento positivo da proposta, que possibilita avanços na Organização por Local de Trabalho, surge como moeda de troca para flexibilizar direitos, num perigoso precedente.

Ainda acredito que existe uma luta entre o capital e o trabalho e, no capitalismo, o capital prepondera. Apesar de avanços dos governos Lula/Dilma na área social, no quesito trabalho, poucos legados foram alcançados.

Para reverter essa situação devemos pautar o necessário debate visando uma grande ofensiva dos trabalhadores para que avanços sejam conquistados. Organização nos Locais de Trabalho, Garantia no emprego, proteção social (Fim Fator previdenciário; defesa SUS; etc), são consignas que unificam os trabalhadores.

A proposta olha o Brasil a partir do ABC. Propor que o negociado prepondere sobre o legislado não leva em conta a realidade de nosso país e do interior da maioria dos locais de trabalho. A correlação existente nos locais de trabalho não é favorável, tendendo a desarmar os trabalhadores nos escassos mecanismos de defesa que temos garantidos.

Peca pelo conteúdo e peca pela forma. O projeto não foi debatido amplamente com os trabalhadores, através de suas representações, mas já tramita na Casa Civil. Sem falar que está mais intenso o debate com os representantes patronais.

Não creio que avanços serão conquistados em negociações sem mobilizações efetivas. Seria uma ilusão sindical, ou seria uma concepção sindical? Ou ambas?

Precisamos barrar esse processo. Depois que for para o Congresso pode ser tarde. Conhecendo a correlação de forças do legislativo podemos ainda perder o que de avanço existe na proposta.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

NÃO TOQUEM EM NOSSAS CONQUISTAS!




Mais do que nunca, o tema previdenciário precisa ser incorporado como agênda prioritária dos trabalhadores.Estamos sendo atacados em várias frentes. Não bastasse as artimanhas do INSS para dificultar o acesso aos benefícios pelos trabalhadores vítimas de doenças e acidentes de trabalho, no debate pelo fim do famigerado fator previdenciário, tentam introduzir retrocessos inadmissíveis.

Quanto ao tratamento dispensado aos segurados, são recorrentes as denúncias que nos chegam quanto ao tratamento desumano e humilhante a que são submetidos muitos dos periciados.

As queixas são de que os segurados além de enfrentar a demora na marcação da perícia são tratados com desconfiança no ato pericial. São muitas as denúncias de que os trabalhadores periciados são tratados como possíveis fraudadores nos atos periciais. São muitos os trabalhadores que afirmam um tratamento descortês e ameaçador na perícia, muitas vezes com a ameaça de ser chamada a segurança ao menor questionamento do ato pericial. São muitas as denúncias de que as perícias não examinam os laudos dos médicos assistentes dos trabalhadores e desconsideram exames e laudos trazidos pelo segurado.

Agora mesmo, há poucas semanas atrás, como solução para o problema de atraso no agendamento das perícias, o INSS estava implantando nas agências que estão recebendo a intervenção, uma tabela de recuperação de doenças, o chamado atestado médico eletrônico. Assim, um trabalhador com o diagnóstico de LER/DORT - Lesão de Esforço Repetitivo, em membros superiores, teria um  prazo de recuperação de trinta dias, independente de suas características físicas pessoais, de suas atividades laborais cotidianamente desempenhadas, de sua condição orgânica de recuperação. O afastamento seria feito com um prazo determinado sem um exame apurado das exatas condições do segurado.

As perícias médicas do òrgão previdenciário devem ser criteriosas, examinando as causas de afastamento do segurado, as reais condições clínicas do trabalhador, as considerações feitas por seu médico assistente e os exames e laudos por ele trazidos.

A perícia não pode demorar quatro meses para ser realizada. O segurado não pode ser tratado como um inimigo pelo servidor público do INSS. O trabalhador não pode ser tratado como fraudador. A perícia deve examinar a relação entre a doença e o trabalho. O segurado merece respeito.

Quanto à tentativa do governo federal de trocar o fim do fator previdenciário pelo aumento da idade mínima impõe uma grande mobilização nacional.

Devemos levar em consideração a situação de milhares de brasileiros que não têm condições de estudar e só entrar no mercado de trabalho mais tarde, com mais idade, como ocorre nos países mais desenvolvidos. Portanto, esses trabalhadores pagarão mais para receber por menos tempo.

Infelizmente, as pessoas começam a trabalhar muito cedo para ajudar no orçamento da família, para sobreviver. Muitos enfrentam a rotina dura do corte de cana de açúcar, ou o trabalho nos setores químico, elétrico etc., aos 16 anos, no máximo 17 anos. Esses trabalhadores vão morrer antes de se aposentar. Vão pagar e não vão receber.

Um governo progressista deve buscar garantir a devida proteção social aos trabalhadores. A lógica atuária/contábil dos argumentos não se sustentam pois a previdência social não é deficitária e, mesmo que o fosse, a busca do custeio deveria ser canalizada para as grandes fortunas, para os bancos que tem isenção tributária.

Não vamos deixar tocar nos direitos conquistados pelos trabalhadores. O que é necessário é avançar nos direitos sonegados pelo neoliberalismo, promotor na crise e das injustiças sociais.

Pelo fim do fator previdenciário sem idade mínima, eis a luta principal do momento!




terça-feira, 29 de maio de 2012



Abaixo link e entrevista traduzida realizada pelo compenheiro Moah Cyr publicado no site russo http://www.chashkapetri.ru/

Link da entrevista no site Russo:
http://bit.ly/LPfOhP

PRECISAMOS RETOMAR A LUTA PELAS GRANDES CAUSAS



Com 50 anos, Mauro Salles é não é um neófito no movimento sindical brasileiro. Ao contrário, desde os 22 anos, quando ingressou no Banco Sulbrasileiro (atual Santander) é um combativo militante da causa da classe trabalhadora. Participou das grandes, memoráveis e vitoriosas greves dos bancários nos anos 80/90 do século passado. Igualmente esteve presente nas campanhas gerais dos trabalhadores no mesmo período – lutas cujas bandeiras eram Anistia, Constituinte e Eleições Diretas, entre muitas outras. Atualmente na presidência do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre, cargo para o qual foi eleito em 2011, tem a espinhosa missão de conduzir o movimento sindical da categoria na difícil travessia rumo à modernidade tecnológica. Além de dirigir um dos mais importantes sindicatos de trabalhadores da história do Brasil. Dos quadros da entidade, saíram nada mais nada menos do que dois ministros e dois governadores do Rio Grande do Sul, além de inúmeros parlamentares. Olívio Dutra, por exemplo, presidiu o sindicato, foi prefeito de Porto Alegre, deputado federal, governador e ministro, e Tarso Genro, atual governador, que também foi prefeito, ministro e, por anos, advogado do sindicato. O atual prefeito de Porto Alegre, José Fortunatti, também presidiu a entidade. Ou seja, o Sindicato dos Bancários há anos que forma quadros políticos e os projeta para cargos de mando nas distintas esferas do poder público. Neste cenário, as reflexões de Mauro Salles acerca do desafio que tem pela frente – a partir do que vivenciou até então – são um precioso e estimulante incentivo para todos aqueles que acreditam que um mundo melhor é, sim, possível. A entrevista foi concedida no final da manhã/início de tarde do dia 29 de março de 2012, aos jornalistas José Edi e Moah Sousa, na sede do Sindicato dos Bancários no centro da capital gaúcha.


Segundo alguns observadores dos movimentos sociais, a partir do advento do governo Lula o sindicalismo perdeu muito da combatividade que possuía. O sindicalismo brasileiro envelheceu?
A nossa categoria vive um choque de gerações. Tem o pessoal mais antigo, mas está entrando muita juventude na categoria. O nosso secretário geral tem 26 anos. Eu tenho 50. Há então um choque, um encontro de gerações. Quanto a questão do governo Lula houve uma mudança em relação aos anos 90, do neoliberalismo. Hoje é outra realidade. É preciso contextualizar a atuação do movimento sindical. Antes tínhamos a luta contra a ditadura, pela anistia, contra a Nova República, pela Constituinte – as bandeiras de luta eram mais ousadas, a conjuntura permitia e exigia isto. Não era só o movimento sindical, estas bandeiras também eram abraçadas por outros setores do movimento social. O movimento sindical se aproveitou desta ebulição e as oposições começaram a assumir o controle de diversas entidades de representação dos trabalhadores. Naquela época acreditávamos que iríamos conquistar o poder e fazer a Revolução. Acreditávamos que o socialismo era possível. Depois dos anos 90, com o advento do neoliberalismo no Brasil, começou uma nova fase. Quando o Collor de Mello venceu a eleição, em 1989, tratou de implantar a cartilha política e econômica neoliberal. Se o Lula ou o Brizola (ex-governador do Rio de Janeiro, falecido em 21 de junho de 2004) tivessem vencido naquele momento talvez a história fosse outra. Teve início então um período extremamente nocivo para os trabalhadores brasileiros, com demissões em massa e privatizações. O movimento sindical, a organização dos trabalhadores passou a ser duramente reprimida, sendo um dos episódios mais significativos a repressão à greve dos petroleiros durante o primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso.

Existem diferenças entre os bancários e outras categorias de trabalhadores?
Sim, do ponto de vista da organização. Os petroleiros, a exemplo dos bancários, são uma das poucas categorias organizadas nacionalmente, cujas campanhas acontecem de forma unificada. A diferença, em relação aos bancários, é que eles, a rigor, têm um único patrão – a Petrobrás – enquanto os bancários têm de lidar com vários bancos, diversos empregadores. Nossa Convenção Coletiva é nacional. Do Oiapoque ao Chuí é a mesma Convenção.
Como você analisa a transformação da carreira do bancário na era do computador?
A tecnologia é uma ferramenta. O que mudou – e a tecnologia ajudou – foi o método de gestão. Hoje o controle do trabalhador é muito mais eficaz. Antigamente tinha o chefe do trabalhador. Hoje através de softwares é possível controlar a hora em que o trabalhador entra no computador, a hora em que ele sai do banco. As câmeras online também ajudam neste controle. Através de emails e torpedos os bancários são controlados e cobrados todo o tempo. O controle ficou mais intenso e também aumentou que a competição entre os colegas e a disputa entre agências.
Pode-se dizer então que a tecnologia facilitou a vida do cliente e prejudicou a vida do bancário?
A tecnologia serviu também para enxugar o mercado de trabalho. Hoje o cliente, nos terminais de auto-atendimento, executa operações que antigamente eram trabalho do caixa. Diminuiu o contingente de funcionários e também intensificou o trabalho. Não é só entre os bancários que se verifica esta situação. O mundo do trabalho é isto. É cada um por si. Hoje está se formando uma geração com um nível de individualismo muito grande. Esta geração tem dificuldade de participar de uma ação coletiva.
Com o advento da tecnologia nos anos 90 dizia-se que bancário era uma categoria em extinção. A afirmação se mantém?
Não. O contingente de trabalhadores diminuiu, mas a categoria permanece. O que pulverizou a categoria foi a terceirização, os promotores de vendas, as lotéricas que fazem operações bancárias. Há um grande número de pessoas trabalhando para o sistema financeiro sem serem bancários e sem usufruir dos benefícios salariais e sociais da categoria como, por exemplo, a jornada de seis horas.
Quem trabalha em banco hoje está com o futuro garantido?
Nos bancos públicos é possível construir uma carreira, mas nos bancos privados não, ninguém está seguro. A possibilidade de demissão é uma ameaça concreta.
Você acha que o trabalhador bancário está perdendo a memória?
Acaba perdendo. A preservação da memória não se dá apenas de forma oral e visual – que registramos através do nosso projeto de memória bancária. Isto é importante, mas a formação se dá na vida, na prática. Nós tivemos uma melhoria agora, pois desde 2002 temos tido greves na categoria – isto dá outra formação. Eu me formei num tempo de intensa mobilização da categoria, com a realização de greves maravilhosas e tal... A nova geração não tem isto, sem falar na questão do individualismo, da pulverização. Estas são as razões da dificuldade de implementar a luta coletiva. Nosso desafio é romper esta barreira cultural. Temos investido muito nisto, promovendo debates e discussões com a categoria.
O Sindicato de Porto Alegre foi um dos primeiros a levantar os problemas de saúde envolvendo os bancários. Como vem sendo trabalhada esta questão atualmente?
Tratamos principalmente de organizar e informar os trabalhadores. Temos um grupo de organização solidária, chamado portadores de doenças ocupacionais. Fornecemos informação jurídica, fizemos manifestações na Previdência Social contra os médicos dos bancos. A saúde pública está sucateada. O SUS foi uma conquista dos trabalhadores e hoje ninguém consegue ser tratado com dignidade pelo sistema. Precisamos reabraçar grandes causas como esta.
Nos últimos anos, o Sindicato ganhou muita visibilidade na área cultural com a criação da Casa. Como se deu o processo?
O Sindicato sempre teve uma atividade cultural muito intensa. Nas discussões sobre a reforma da sede, decidimos criar um espaço cultural multiuso, com sala de cinema e espaço para exposição de artes plásticas e debates culturais, um auditório e uma biblioteca, contemplando os interesses da categoria e ao mesmo tempo integrando a entidade ainda mais na vida da cidade. Conseguimos patrocínio da Petrobrás e do Banrisul para viabilizar o projeto, através de programas de isenção fiscal do governo federal. Na ocasião, houve um certo temor em relação ao apoio do banco estadual, o que na visão de alguns poderia criar uma submissão por parte do sindicato. Isto não aconteceu. No dia da inauguração do cinema, por exemplo, o diretor do banco estava participando da solenidade de inauguração e os funcionários estavam em greve. Não nos permitimos ser reféns por causa do patrocínio. Não deixamos de fazer a luta. Uma grande preocupação do nosso projeto foi e é não apenas de difundir, mas também promover cultura, o que fazemos através de oficinas literárias, teatrais e de vídeo direcionadas para os bancários. Também investimos na formação política e sindical, realizando debates e seminários.

Na luta contra a ditadura militar o que unificava os trabalhadores de distintas categorias era o socialismo como bandeira final. Esta bandeira continua?
Era a nossa utopia. Precisamos reencontrar este sonho. Um dos problemas é o pragmatismo que está em vigor no movimento sindical. A vida impõe e cobra resposta às demandas específicas. Neste quadro de especificidade, como é que vamos chamar a fazer revolução, construir o socialismo, um mundo melhor? Está complicado, é difícil de vislumbrar. Mas por mais que seja impossível agora, entendo que temos que insistir em bandeiras capazes de unificar os trabalhadores, como por exemplo, a luta contra a demissão imotivada. Estas bandeiras não são levantadas hoje porque o pessoal acha impossível de atingir, depende de força no Congresso Nacional, então não vai acontecer, então vamos nos apegar no possível, o salário mínimo, que é uma demanda que vem sendo respondida pelo governo, independente da ação sindical.
Para onde vão os bancários?
Depende da conjuntura econômica e social do Brasil. Vivemos um momento de ampliação do sistema, com a abertura de novas agências e concursos no Banco do Brasil e na Caixa Federal. Os bancários vão para onde for o Brasil.

(Uma correção, iniciei minha carreira bancária no Bradesco em 1982)


Автор: Moah Sousa, jornalist and cultural producer, moah@estadao.com.br